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ÁRVORE DA VIDA, ÁRVORE DA MORTE

Autor: Regina Scharf

ONGs lançam campanha de plantio de árvores em homenagem às vítimas de Covid-19; viúva de Aldir Blanc plantará muda de goiabeira branca, tema de uma canção do compositor

Na infância, o compositor Aldir Blanc vivia numa casa que tinha uma goiabeira branca imensa, que se curvava até o chão. O moleque subia até a copa para ler Monteiro Lobato e sonhar. A árvore nunca mais saiu da sua vida. Em uma de suas canções, Galho de Goiabeira, ele contava a história de um rapaz que despencou de uma árvore quando se exibia para uma moça. Mais tarde, já de cabelos brancos, escreveu numa crônica no Jornal do Brasil que estava voltando para aquela goiabeira branca, “que me recolherá definitivamente em seus galhos”.

Aldir morreu em maio, uma das 177 mil vítimas da Covid-19 no Brasil.

A lembrança daquela goiabeira branca ficou como herança para a sua viúva, Mary Sá Freire. Ela vai plantar uma muda da espécie em uma área manejada pela Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD) em Silva Jardim, a uma hora de carro do Rio de Janeiro. Será no dia 12 de dezembro, no lançamento da Campanha Bosques da Memória em homenagem às vítimas de Covid-19 e aos profissionais de saúde que enfrentam o vírus. “Eu não pude me despedir dele”, diz Mary. “Vou usar essa dor para criar uma coisa boa”.

A campanha foi construída colaborativamente por uma série de entidades: a própria AMLD, a Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA), a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (RBMA), o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica e a Associação em Defesa do Rio Paraná, Afluentes e Mata Ciliar (Apoena). A participação é aberta a outras ONGs, indivíduos, famílias, grupos religiosos, coletivos e empresas. “Neste ano desgraçado, em que não podemos sequer vivenciar o luto, vemos o plantio como uma forma de esperança seja pelo meio ambiente, seja pela saúde das pessoas”, diz Luis Paulo Ferraz, secretário-executivo da AMLD. A entidade pretende trazer famílias e amigos de vítimas da pandemia para plantar 6.800 árvores.

Ao longo dos próximos seis meses, dezenas de outros plantios serão realizados em todo o País sob o guarda-chuva da campanha. A Apoena, de Presidente Epitácio, no interior de São Paulo, plantará 2 mil árvores. A RBMA vai plantar 120 no Cinturão Verde de São Paulo, todas de espécies ameaçadas de extinção. Também estão previstos mutirões em áreas de mangue, de restinga e de matas de araucária, que serão documentados para promoção no website da campanha.

“Queríamos que esses plantios tivessem um lado humanitário e que fossem descentralizados”, conta Clayton Lino, presidente do Conselho da RBMA. “Todos devemos ser parte da solução, já que todos somos parte do problema”. Ele entende que essa humanização foi um dos argumentos que levou a Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) a listar a campanha como um dos exemplos a serem apresentados durante o lançamento da Década da Recuperação Ambiental, que começa em janeiro.

Alguns outros coletivos também estão organizando plantios para celebrar as vítimas do Covid-19 sob a coordenação do Grupo Plantio Brasil, ativo nas redes sociais. A Campanha In Memoriam/ Bosques da Saudade inclui plantios em Araçatuba (SP), Alto Paraíso (GO) e Florianópolis.

Mas iniciativas no gênero, que associam morte e vida, convertendo a dor em florestas, ainda são raras no Brasil. No exterior, isso é um pouco mais comum. A cidade de Florença, por exemplo, está plantando mais de 400 mudas, uma para cada florentino morto devido à pandemia. No Reino Unido, The Forest of Memories está selecionando áreas onde serão criados vários bosques com o plantio de 65 mil árvores, uma para cada vítima da doença nas ilhas britânicas.

Clayton Lino se diz impressionado com a recepção da Campanha Bosques da Memória. “O envolvimento é muito grande, todo mundo sente que é algo que precisava ser feito”, diz. Para a família de Aldir Blanc, como para milhares de outras, esse é um ato muito pessoal. E também coletivo. “Hoje as goiabeiras brancas são raras e sei que a AMLD penou para conseguir uma muda”, diz Mary. “Para mim, esse gesto é muito significativo porque ela, que vem do Aldir, se transformará em muitas outras”.

*Regina Scharf é jornalista ambiental e coordena o Projeto Nova Mata, um mapa das iniciativas de recuperação da Mata Atlântica

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